O projecto de informatização dos arquivos do “Komintern”, intitulado Incomka, concebido pelo Conselho Internacional de Arquivos e implantado sob a égide do Conselho da Europa, foi recentemente concluído. O grande resultado do projecto é a informatização dos inventários do fundo do “Komintern” (22 000 páginas) e a digitalização de 1 milhão de documentos (que representam 5% da totalidade do fundo, constituído por 230 000 dossiers, depositados em 15 Km de estantes), escolhidos por um comité científico de historiadores em função das estatísticas de pesquisa, dos interesses das entidades cooperantes e do estado em que se encontram os documentos.
O “Komintern”
O fundo arquivístico do “Komintern” (ou "Comintern") é de capital importância para a história da Europa e do mundo no período entre as duas grandes guerras. Com efeito, o “Komintern” ou Internacional Comunista (ou, ainda, 3.ª Internacional), fundada por Lenine em Março de 1919 para consumar a revolução mundial do proletariado e apoiar a União Soviética na prossecução da sua política externa, contém documentos sobre as relações do aparelho central de Moscovo com os partidos comunistas aderentes (cerca de cinquenta). Até à sua dissolução, operada em Maio de 1943, o “Komintern” encabeçou as acções legais e ilegais desses partidos, assim como das organizações filiadas.
O acesso a esta base de dados é extremamente útil para o investigador. Serge Wolikow, professor de história contemporânea da Universidade da Borgonha, especialista do comunismo e conselheiro científico do projecto, refere com entusiasmo: “Este inventário permitir-nos-á trabalhar sobre as séries documentais e fazer pesquisas mais sistemáticas e comparativas. Poder-se-á, por exemplo, observar os processos de decisão do “Komintern”. Tal não dispensa a deslocação ao local, sobretudo se os documentos procurados não estiverem digitalizados. Este fundo, disponível ao maior número possível, permite o alargamento da comunidade de investigadores. É iminentemente democrático.”
As origens do projecto
O projecto teve início em 1992, quando um grupo de historiadores alemães, chamado grupo de Manheim, solicita ao Conselho da Europa a tomada de medidas que assegurassem a conservação do fundo. Depois da questão ter sido confiada ao Conselho Internacional de Arquivos, faltariam ainda quatro anos de negociações entre aquele órgão, o Conselho da Europa, o serviço federal dos Arquivos russos e especialistas da história da organização até à assinatura do acordo que deu origem ao Incomka. Entretanto, fora encontrada a ferramenta que tornaria possível a informatização dos arquivos do “Komintern”: a aplicação “Archidoc”, desenvolvida para o Arquivo Geral das Índias e em funcionamento desde Outubro de 1992.
Por outro lado, a viabilidade financeira do projecto via-se assegurada pelo patrocínio de oito instituições, contribuindo cada uma com 200 000 euros: os Arquivos Federais da Suíça, os Arquivos Federais da Alemanha, os Arquivos de França, o Ministério da Educação e Cultura de Espanha, a Biblioteca do Congresso (Washington), os Arquivos de Estado de Itália, os Arquivos Nacionais da Suécia e o “Open Society Archives” de Budapeste. “Pôde levar-se as negociações a bom termo porque todos beneficiavam: os investigadores, que veriam as condições de acesso aos arquivos radicalmente melhoradas, e os arquivos da Rússia, que até aí condicionavam informação importante e aos quais este projecto deu uma ajuda no esforço de modernização”, diz Charles Kecskemeti, secretário-geral do Incomka.
O início dos trabalhos e o seu desenvolvimento
Em 1996, o acordo é assinado e o trabalho começa pela adaptação do “Archidoc” aos caracteres cirílicos.
Logo de seguida, os parceiros chegam a acordo quanto à escolha dos documentos. “Por fim, essa escolha não era difícil, pois as necessidades convergiam. Nós queríamos digitalizar, por exemplo, as subséries dos organismos políticos do aparelho central e dos organismos com competência regional, porque todos nós estávamos particularmente interessados no trabalho permanente do “Komintern”, estabelecido em Moscovo, e nos gabinetes exteriores”, explica Charles Kecskemeti.
Uma vez escolhidos os documentos, uma equipa de cerca de vinte funcionários dos Arquivos do Estado Russo para a História Social e Política reúne os dados para o inventário informático e procede à digitalização. Por seu lado, a Biblioteca do Congresso encarrega-se da transliteração dos nomes das famílias do cirílico para caracteres latinos (mais de 100 000) e de traduzir os descritores para inglês. Tal acontece porque os arquivos do “Komintern” são maioritariamente em russo e alemão, embora ocorram cerca de cinquenta outras línguas. De qualquer maneira, era fundamental assegurar que os investigadores não russófonos pudessem consultar a base de dados.
Conclusão do projecto e perspectivas
No fim de 2002, concluem-se a digitalização e indexação dos documentos. Pode lamentar-se a ausência de certos fundos, como são os de três dos principais dirigentes da Internacional Comunista, reclassificados em 1994, depois de terem estado acessíveis durante três anos: Dimitrov, Manouilski e Piatnitski. Segundo Charles Kecskemeti, “os Russos fizeram um enorme esforço, pois abrir 95% dos arquivos do Komintern e das organizações satélite é algo de considerável. Durante muito tempo, a autorização para se fazer pesquisas era considerada como um favor do Estado e não uma obrigação. O historiador delegava o seu objecto de trabalho no arquivista, que consultava o inventário e decidia que documento conceder. Apontar ao Estado russo a inacessibilidade de certas subséries não se afigura muito justo quando se sabe que os arquivos dos serviços secretos ocidentais não se encontram acessíveis (o “Komintern” trabalhava em estreita ligação com os serviços de informação soviéticos) e que, em França, ainda não foram totalmente abertos os arquivos do período de Vichy. Para já, fez-se um inventário completo dos documentos consultáveis, o que constitui um enorme progresso. Tal prova uma revolução real das mentalidades. Além de que as desclassificações parciais estão, desde já, em curso”.
O trabalho de digitalização dos Arquivos do Estado Russo para a História Social e Política não fica por aqui. O fim do projecto Incomka coincide com o início da digitalização de outros fundos, como, por exemplo, o das Brigadas Internacionais, ponto alto da intervenção comunista durante a guerra civil espanhola.
Ainda quanto ao inventário informático e às imagens digitalizadas dos documentos dos arquivos do “Komintern”, a hipótese da sua transferência para a Internet irá ser ponderada.
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Agosto/2003
Texto baseado no artigo “Incomka –L`Internationale numérisée”, de Hélène Ochanine, publicado na revista “Archimag”, edição de Fevereiro de 2003.