"Tigre da Malásia" deixou de estar em vias de extinção 



 
 
 

 
 

 
 

Já ouviram falar de Hugo Pratt? E de Corto Maltese, personagem de banda desenhada criada por aquele autor veneziano? Quem diria que esta personagem contribuiu indirectamente para que uma outro, recriado pelo mesmo autor, só agora visse a luz do dia, dezenas de anos depois de ter sido desenhado? Estamos a falar de Sandokan, o "Tigre da Malásia", personagem criada originalmente pelo escritor Emilio Salgari na obra “Os Tigres de Mompracem”.

Corria o ano de 1969, quando Hugo Pratt deu corpo às primeiras imagens do herói oriental, mas, logo nessa altura, foi desafiado para relançar Corto Maltese, que havia aparecido dois anos antes na obra “A Balada do Mar Salgado”. Abraçando este desafio, que o faz mudar-se para Paris e dedicar-se quase exclusivamente ao desenvolvimento das aventuras do famoso marinheiro maltês, Hugo Pratt passa a prestar menos atenção à adaptação para banda desenhada de “Os Tigres de Mompracem”, a partir do argumento de Mino Milani, e se, no princípio, ainda fazia chegar algumas pranchas de Sandokan à redacção do Corriere dei Piccoli, suplemento infantil do jornal Corriere della Sera, que lhe encomendara o projecto, o facto é que não viria nunca a concluir o trabalho.

Na sequência do desinteresse de Hugo Pratt, não foi tomada qualquer decisão e os originais – cerca de três dezenas de pranchas – foram deixados dentro de uma pasta, resgatada casualmente trinta e sete anos depois por Alfredo Castelli de um arquivo pessoal, onde a colocara em 1975, quando deixou a equipa do Corriere dei Piccoli. Apesar do desinteresse em prosseguir o projecto, o próprio Hugo Pratt tentou seguir o rasto das suas pranchas de Sandokan, embora chegasse a negar a existência da história, para a confirmar de seguida. Certo é que as hipóteses de resgatar as pranchas originais de Pratt pareciam reduzidas, uma vez que uma grande parte do material de arquivo da década de 1960 e do início da década de 1970 do Corriere della Sera se tinha perdido – diz-se mesmo que foi queimada – para arranjar espaço nos armazéns.

Foi, pois, com surpresa que Alfredo Castelli encontrou a maqueta com as provas originais de Sandokan, ainda para mais quando procurava outros objectos. Estávamos em 2008 e, com o acordo da sociedade gestora dos direitos de autor da obra de Hugo Pratt, foi possível publicar a primeira edição mundial do Sandokan do autor veneziano já no decorrer de 2009. É caso para dizer que o "Tigre da Malásia" de Hugo Pratt deixou de estar em vias de extinção...

Pode dizer-se que o sucesso de Corto Maltese matou Sandokan? Só se temporariamente. Aliás, o sucesso de Corto Maltese – que projectou Hugo Pratt na cena internacional – parece ter tornado, na dobagem dos anos, o inédito Sandokan numa obra viva, que contribui para um olhar renovado sobre o seu autor.

Felizmente, existem arquivos. Pessoais ou de qualquer outro tipo...



2009-10-13