A história do imóvel onde, actualmente, se situa o Arquivo Contemporâneo do Ministério das Finanças está directamente relacionada com o edifício que foi, em tempos recuados, o Celeiro Público.
Mandado este construir por D. José I em 1766 com o propósito de assegurar a distribuição de pão aos moradores da cidade de Lisboa, recebe Regimento em 24 de Janeiro de 1777, onde se estipula que num dos lados do dito edifício se faça construir um armazém para albergar “alguns dos referidos Generos [isto é, cereais], achando-se quentes, ou damnificados”. É também determinado o estabelecimento de mais sete “Celleiros públicos de Vendagem”, situando-se um destes “ao pé do mesmo Terreiro Geral com oito lugares para vendas de Farinhas”, o qual aparece nomeado no parágrafo III do Regimento como o “Celleiro das Farinhas de fóra do Terreiro”.
À parte alguma indefinição que o Regimento de 1777 possa suscitar relativamente aos edifícios que enuncia, o facto é que, poucos anos depois, numa Conta e Representação apresentada pelo Conde de Valadares, Inspector Geral do Terreiro, à rainha, a 23 de Março de 1780, se faz referência à “grande necessidade que havia de se fazer os dois armazens para as mediçoens, e para se recolherem as farinhas de fora”. Face ao enunciado, e em forma de aviso datado de 19 de Abril desse mesmo ano, a rainha resolveu que se fizessem os referidos armazéns, contudo, antes que estes tivessem início, ordena que se “mande fazer hum orçamento (...) para que lhe seja presente o custo que poderão fazer (...) e á vista da importancia das mesmas obras dar a sua final Rezolução”.
Após recepção deste aviso régio, o Inspector Geral do Terreiro ordena aos mestres Luís da Cunha, Manuel Vicente e José Gomes Diniz “para que examinacem os dois sitios dos lados deste Edificio [do Terreiro Público] , e que declarecem debaixo do juramento, quanto poderião importar dois armazens lizos com a capacidade simples-mente hum de recolher e se pôr á venda as farinhas de fora, e outro para servir para as medições que se devem fazer”. Passados cinco dias, no dia 24, os referidos mestres estimam, sob juramento e após o exame de alicerces que já se achavam feitos nos lados nascente e poente do Terreiro, que a obra poderia custar “doze contos de reis, pouco mais ou menos”.
A 13 de Março de 1781, a rainha remete novo aviso ao Inspector Geral anexando-lhe a planta dos “armazéns que se devem edificar junto ao grande Edificio do Terreiro do Trigo, na conformidade do Regimento que os determina”, contudo, apesar de serem dois os armazéns que se deveriam edificar, D. Maria I ordena “que logo se comésse a obra da parte Oriental do mesmo Terreiro que hade servir para Depozito de Trigos: suspendendo-se por ora a que se destina fazer para as Farinhas, accomodaçoens de Officiaes e outros uzos de Terreiro”. Este aviso servira, assim, para dar início à construção do “armazém das medições” sob a direcção do arquitecto das Obras Públicas, Reinaldo Manuel dos Santos, ao mesmo tempo que permite identificar, definitivamente, o actual edifício do Arquivo Contemporâneo do Ministério das Finanças com o então chamado “armazém das farinhas”.
Relativamente ao início da edificação do “armazém das farinhas”, é difícil concretizar uma data. Todavia, no “Mappa Geral de todo o anno de 1782, respectivo ao Terreiro”, de 12 de Janeiro de 1783, o Conde de Valadares refere que se, por um lado, “já tem uso o novo armazem das medições”, por outro, “ainda se necessita fazer alguma despeza para a arrecadação das farinhas, e ficar a obra completa (...)”, o que permitirá situar o começo das obras algures entre meados do ano de 1781 e meados do ano seguinte.
Quanto à sua conclusão, a sustentação de uma data precisa é, também, difícil. É legítimo pensar-se que o edifício ainda não estaria acabado em meados do ano de 1786, visto que data de 2 de Julho desse ano uma portaria destinada ao mestre Luís da Cunha dizendo-lhe que “receba para obra do Celeiro das Farinhas e Caza da Guarda militar que se edefica junto ao Terreiro Publico quatrocentas cincoenta vigas de Riga”. Por outro lado, recorrendo a documentação de carácter iconográfico, pode dizer-se que o edifício já estaria concluído em 1805.
Sandra Boavida